quinta-feira, 17 de abril de 2014

Informativo: Surdocegueira e Deficiência Múltipla


 
Durante muito tempo, a surdocegueira foi vista como uma deficiência múltipla, como se as limitações provocadas pela perda auditiva e visual se somassem. Contudo, de acordo com Maia (2011) o fato de tais pessoas não se beneficiarem de programas sociais destinados a pessoas com surdez ou com deficiência visual, conduziu a partir de 1991 a uma “Ação afirmativa” em prol do reconhecimento da surdocegueira como uma deficiência única.

Mais recentemente, estudos como o de Lagati (1995) citado por Bosco, Mesquita e Maia (2010, p.8) têm apontado a surdocegueira como “uma condição única, que apresenta outras dificuldades além daquelas causadas pela cegueira e pela surdez.” Desse modo, as limitações se multiplicam quando estas duas deficiências ocorrem numa mesma pessoa.

Concordando com este autor, Mc Innes (1999) também citado por Bosco, Mesquita e Maia (2010, p.8) considera a surdocegueira “uma deficiência única”, a qual tem suas próprias especificidades, que demandam uma abordagem particular.  Este mesmo autor classifica a surdocegueira em congênita e adquirida.

Já a deficiência múltipla é definida como um “conjunto de duas ou mais deficiências associadas, de ordem física, sensorial, mental, emocional ou de comportamento social.” (IKONOMIDIS, 2010).

Para esta autora, a comunicação é extremamente importante para uma vida de qualidade, contudo, sendo a visão e a audição consideradas as principais vias de acesso a essa aprendizagem, as pessoas com perda auditiva e visual tem essa aprendizagem limitada. Em decorrência, a falta de comunicação pode provocar limitações na aprendizagem incidental e dificuldades na interação com os outros e com o meio social, que consequentemente podem resultar em dificuldades comportamentais e emocionais.

                   Face ao exposto, a escola, considerando as especificidades de uma pessoa com deficiência múltipla e as consequências que a falta de comunicação provocam, precisa planejar estratégias de ensino centradas “[...] num modelo de colaboração na qual a comunicação seja a prioridade central” (IKONOMIDIS, 2010). Esta autora ressalta ainda, que é preciso estabelecer “[...] rotinas claras e uma comunicação adequada. É preciso desenvolver atividades de maneira multissensorial para garantir aproveitamento de todos os sentidos e que sejam atividades que proporcionem uma aprendizagem significativa [...]” (IKONOMIDIS, 2010). Dentro desta mesma visão, Serpa (2002, p.2) destaca que

 

Nas crianças com surdocegueira e com deficiência múltipla, a COMUNICAÇÃO é o aspecto mais importante e, por isso, deve-se focar nele toda a atenção na implementação do programa educacional/terapêutico, já que é o ponto de partida para chegar a qualquer aprendizagem.

 

Assim, para iniciar a comunicação tanto com uma pessoa com surdocegueira como com uma pessoa com deficiência múltipla é preciso levar em consideração o estágio de comunicação atingido pela pessoa e as habilidades motoras desta. No trabalho com pessoas que ainda não atingiram o estágio de comunicação simbólico é importante desenvolver a comunicação pré-simbólica.  Para isso, podemos destacar os objetos de referência como uma importante estratégia de ensino.

 

Objetos de Referência são objetos que têm significados especiais associados a eles, pois servem para comunicar sobre diversas situações. Eles têm a função de substituir a palavra, assim podem representar pessoas, objetos, lugares, atividades ou conceitos. Possibilitam um distanciamento espacial [...] e ou temporal [...]. (MAIA, 2010, p.7)

           

Para Maia (2011), iniciar a comunicação com objetos de referência é importante porque estes ajudam as crianças a lembrarem das coisas e pessoas, a saberem o significado das coisas, a estabelecerem uma comunicação com outras pessoas, a registrarem suas experiências e expressarem seus desejos.

A autora destaca ainda, que os objetos de referência podem se constituir numa ponte entre o concerto e o abstrato, entre o estágio de comunicação Pré-simbólico e o Simbólico, por meio de um processo em que o objeto é desnaturalizado de sua função particular até chegar à representação deste por meio da escrita ou do sinal.

Também, Rowland e schweigert (2013) propondo o uso de “símbolos tangíveis” por pessoas com surdocegueira ou com deficiência múltipla que não conseguiram atingir o estágio simbólico de comunicação, alertam para o fato de que estes símbolos devem ser adequados a cada usuário. Desse modo, é preciso capitar as referências mais significativas do objeto para o usuário. Assim, “se o símbolo não tem uma conexão com a referência que seja clara para o usuário, então o símbolo não é tangível para ele.” (ROWLAND e SCHWEIGERT, 2013, p.3). Consideram ainda, que nas intervenções de comunicação deve haver uma sequência lógica de intervenção com vistas a construir uma estabilidade na comunicação destes usuários, indo de um estágio a outro.

 

Referências:

BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010). Capítulo 1 - A pessoa com Surdocegueira. Capítulo 2 - A pessoa com Deficiência Múltipla. Capítulo 3 - Necessidades Específicas das Pessoas com Surdocegueira e com Deficiência Múltipla.

 

IKONOMIDIS, Vula Maria Apostila sobre “Deficiência Múltipla Sensorial”, 2010 sem publicar.

 

ROWLAND Charity e SCHWEIGERT Philip - Soluções Tangíveis para Indivíduos Com Deficiência Múltipla e ou com Surdocegueira. Apostila In mimeo. Tradução Acess. Revisão: Shirley R. Maia - 2013.

 

SERPA, Ximena Fonegra, Comunicação para Pessoas com Surdocegueira. Tradução do livro Comunicacion para Persona Sordociegas, INSOR-Colômbia 2002.