domingo, 9 de março de 2014

A Educação de Pessoas com Surdez: novos desafios


 
No contexto atual, muitos são os desafios enfrentados no campo da educação, principalmente no que se refere à inclusão escolar. Sobre este aspecto, nos apoiaremos em Damázio (2010) e nos documentos oficiais, entre estes a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, atualmente em vigor no Brasil, que propõem a superação de uma visão fragmentada de homem, sociedade, cultura e linguagem, defendendo a inclusão de todos, com ênfase para as pessoas com deficiência.

Desse modo, em se tratando da educação escolar de pessoas com surdez, Damázio (2010) destaca que o foco não deve ser o uso de uma ou outra língua, mas a transformação das práticas pedagógicas, o que tem se constituído no principal desafio para a inclusão destas pessoas na escola regular. A este respeito, a autora ressalta que o embate entre gestualistas e oralistas tem sido nocivo ao processo de desenvolvimento dessas pessoas no contexto escolar, pois tem canalizado a atenção dos profissionais da escola apenas para o problema da língua, minimizando a própria pessoa com surdez neste processo.

Numa perspectiva inclusiva, a pessoa com surdez não é considerada deficiente. Esta tem perda sensorial auditiva, ou seja, possui surdez. Noutras palavras, esta pessoa tem uma limitação de ordem biológica no tocante à função auditiva, mas que não a impossibilita de aprender, pois tem muitas potencialidades, construídas a partir da integração de outros processos perceptuais, “[...] tornando essa pessoa capaz, como ser de consciência, pensamento e linguagem” (Damázio, 2010, p. 48).

Sendo assim, esta mesma autora ressalta que na educação de pessoas com surdez, é preciso considerar primeiramente o potencial natural destas pessoas e em segundo lugar, a transformação da escola e das práticas pedagógicas. Dentro desta mesma visão, é importante considerar que “[...] as pessoas com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores, que desafiem o pensamento e exercitem a capacidade perceptivo-cognitiva” (Damázio, 2010, p. 50).

À luz destas considerações, a abordagem por meio do bilinguismo, contribui para o rompimento com a fragmentação da educação das pessoas com surdez, pois as desterritorializa. Esta abordagem reconhece que a pessoa com surdez vive em um contexto, onde estão presentes duas línguas: a Língua de Sinais e a Língua da comunidade ouvinte. Por isso, a pessoa com surdez poderá fazer uso de uma ou outra língua no cotidiano escolar e na vida social.

Sobre este aspecto, a abordagem por meio do bilinguismo para a educação de pessoas com surdez garante a formação desta, de modo que a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa, preferencialmente na sua modalidade escrita, constituam línguas de instrução, e que o acesso às duas línguas ocorra de forma simultânea no ambiente escolar.

Dentro deste contexto, a proposta bilíngue de educação para pessoas com surdez (PS) na escola comum deve organizar sua prática pedagógica na sala aula comum e no Atendimento Educacional Especializado (AEE). O AEE PS, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, disponibiliza serviços e recursos e tem função complementar ao trabalho desenvolvido na sala de aula comum, visando a “[...] autonomia e à independência social, afetiva, cognitiva e linguística da pessoa com surdez na escola e fora dela” (Damázio, 2010, p. 52).

Desse modo, Damázio (2010) lembra que os conteúdos curriculares no AEE PS devem estar interligados, de maneira que haja conexão entre teoria e prática, sala de aula comum e AEE. Assim, a organização didática do AEE PS inicia-se com o diagnóstico inicial do aluno com surdez. Em seguida, o professor elabora o plano de AEE PS, envolvendo três momentos didáticos pedagógicos: Atendimento Educacional Especializado em Libras; Atendimento Educacional Especializado para o Ensino da Língua Portuguesa escrita; Atendimento Educacional Especializado para o Ensino da Libras. Estes devem ocorrer diariamente, em horário contrário ao da sala de aula comum, durante os quais os alunos se apropriarão da Libras, da Língua Portuguesa e dos conteúdos curriculares ministrados na sala de aula comum em que o aluno está cursando.

 


Referências:

 

DAMÁZIO, M. F. M.; FERREIRA, J. Educação Escolar de Pessoas com Surdez-Atendimento Educacional Especializado em Construção. Revista Inclusão: Brasília: MEC, V.5, 2010. p.46-57.